Nascidos em bordéis

Nascido em bordeis
(By Manik)

Domingo à noite. Na tevê uma cena com crianças muito pobres me chama a atenção e solto o controle remoto. “Não há uma coisa chamada esperança no meu futuro”, diz uma delas. Me dedico a este momento e assisto Nascidos em Bordéis (2004), que mostra a dura realidade de quem nasce já pensando em morrer. O documentário de Zana Briski e Ross Kauffman, poderia ser resumido como um filme onde duas pessoas ensinam um grupo de oito crianças, filhos de prostitutas nascidos num lugar miserável da Índia, o bairro da Luz Vermelha, em Calcutá, a manipular uma câmera fotográfica e a retratar o lugar em que vivem, seus costumes, o dia a dia. Mas Nascidos em Bordéis não é apenas um filme. É um documentário de transformação de vidas. De resgate. De oportunidade de alguns viverem e sobreviverem de outra maneira. É uma chance de escolha pela vida. É um exemplo de atitude, que permitiu que, por meio do visor da câmara, as crianças enxergassem o seu próprio mundo.

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(By Zana Briski)

O lugar
O bairro da Luz Vermelha, apesar do nome e das cores dos trajes nas ruas, reúne vidas em preto e branco. Junta o caótico, o sujo, o desespero, o faminto, o insensível, brigas, maltratos, decepções. Por trás desta cortina de desespero, o olhar arregalado das crianças consegue capturar flashes da lua cheia ou um meio sorriso (http://www.kids-with-cameras.org/kidsgallery/). O bairro é mais grito, é mais choro, mais dor e palavrões. E nestes constantes momentos, alguns pequenos tapam os ouvidos tentando não ouvir esta realidade. É corrente nos pés e na alma, vísiveis aos olhos, mas quase sempre presente somente na mente. Na luz do dia, nos momentos de folga, as crianças soltam pipas porque observar o céu desvia o olhar do chão encardido, onde há pés descalços, pratos vazios, sexo barato e urina. É sob luzes vermelhas, ar sufocante e paredes pela metade que as pessoas vestem e calçam números maiores, comem o que dá, dormem onde é possível.

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(By Suchitra)

Dilema
E no meio disso tudo o coração dos pequenos indianos duela entre a cultura local, a aceitação de tudo, as crenças diversas e a vontade de não ser o que previamente foi escrito no seu destino. Quem não mora ali age como barreira e contribui para que os habitantes do bairro não se movam. É como se eles pudessem contaminar. As escolas não querem os filhos do bairro da Luz Vermelha. Igualmente como acontece com quem mora em favelas no Brasil, onde não ter um endereço pode gerar dificuldades para conseguir um emprego e até mesmo, fazer uma compra parcelada numa loja. São pessoas que a sociedade, nós, insistimos em querer que fiquem à margem.

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(By Gour)

Uma mão que suplica
A foto que abre este texto, intitulada “Mão”, foi produzida por Manik, 10 anos (na época), uma das crianças do documentário. No momento que vai clicar a paisagem um dos amigos coloca a mão na frente. Uma simples travessura que me transporta para várias releituras. É como se o “dono” da mão clamasse por atenção. Uma intervenção que implora: me vejam, eu existo. Me reconheçam, eu sou gente. Me deem uma oportunidade, eu não quero viver aqui. Me mostrem um caminho ou eu vou morrer. O filme pode ser uma oportunidade para tentarmos soltar o controle remoto da vida e pararmos para enxergar a realidade em detalhes, outras pessoas, outros modos de viver, quem sabe onde está o grito e a dor.

(Segue o site para quem quiser contribuir com estas e outras crianças.
http://www.kids-with-cameras.org/home/)

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Uma resposta em “Nascidos em bordéis

  1. Fantástico. Este texto me remete ao lado triste da vida. Este lado que insistimos em não ver. Ate quando vamos fingir que estes filhos não existem? O mundo tem que acordar, nós precisamos urgentemente acordar.
    Obrigada por compartilhar esta leitura comigo. Pessoas como vc, inquietas nos ajudam a olhar para lado, bem do ladinho tem muitos “nascidos em bordeis”.

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