O computador tomou a vida da gente

homem maquina

O computador ganhou vida e a nossa vida. Tomou conta do nosso tempo, mudou nossos hábitos, nos fez dependentes. O tablet, o smartphone, o telefone celular também. Eu perdi metade das informações que tinha no meu notebook mais as mensagens enviadas e muitas das recebidas pelo outlook. Uma xícara de café com leite banhou o teclado do note e levou os dados. Quando vi o líquido se misturando com as teclas entrei em desespero. Chamei por uma amiga. Virei o note de cabeça pra baixo. Era muito líquido. Então corri com a máquina para a assistência técnica, como uma mãe que leva seu filho desesperadamente ao hospital.
As notícias e perspectivas não eram boas. Saí arrasada. Fora o fato de perder muito material ainda tinha a culpa. Por que tomar café perto do computador? Meus amigos sempre dizem que sou organizada, mas claro que não. Como só tinha metade das coisas salvas? Nos dias que sucederam o fato, descobri quantos e quantos já perderam todos os dados e o equipamento. Um advogado me contou quantas sentenças perdeu e como virou doutor em backup. Compartilhava minha história na esperança desesperada de ter boas notícias, afinal ainda não havia recebido o diagnóstico final da assistência. De todos os contos, apenas um era animador, o restante ficou reunido mentalmente num arquivo chamado “eu também já passei por isso e perdi tudo”.
O que eu não entendia era o sofrimento que isto estava me causando. Meditei, respirei e pensei: é só uma máquina. Não é alguém que você ama, não é um conhecido, não são pessoas. Mas sofri. E aí lembrei muito da minha máquina de escrever Olivetti, que meu pai com muito sacrifício me deu em 1988. Ela sim era preciosa, não guardava meus dados e nem armazenava minhas mensagens. Nesta época, eu trabalhava em um Banco e tudo era muito mais instantâneo. Como? Sim, eu datilografava e a impressão do texto saía na hora. E para resolver um problema com outra área? Dava alguns passos e conversava com o profissional. Ah, e se fosse na Matriz? Telefonava. E ainda mandava cartas e documentos por malote e às vezes usava o telex. Nada armazenava os meus dados, minhas memórias, artes, textos, e os álbuns é que guardavam as fotografias. A NÃO tecnologia restringia meu trabalho ao horário do expediente. Não era possível responder mensagens mais tarde de casa porque não tinha celular, nem computador. E claro, ninguém ligaria para a sua casa à noite.
Fora do trabalho tudo era diferente. Se saísse à noite, tinha que avisar aos pais, porque eles não tinham como te ligar para saber por que você ainda não voltou. Caso se apaixonasse por alguém, precisava recorrer ao papel e à caneta e se concentrar numa boa carta, num bilhetinho ou dar um telefonema, torcer para encontrar o amado na festa ou fazer sinal de fumaça.

As máquinas facilitaram nossa vida….e nos aprisionaram. Passamos a maior parte do tempo com elas e quando não, fatiamos o tempo entre elas, o programa de TV e uma mexidinha na panela. Tudo ao mesmo tempo. Perdemos o momento, a presença, o olhar nos olhos, a conversa de bar, o final de semana offline. Estou aqui digitando e já salvando tudo no C, D, E, dropbox etc. Não quero perder este texto. Ninguém quer perder mais nada. Então, temos que continuar a alimentar a máquina. E colocar tudo na nuvem. Não tem mais volta. Máquina, vida e tempo…cada vez mais um só!

Ah…me ligaram da assistência…vão trocar o teclado e salvar algo do HD. Não sei porque isto nem me fez feliz. Sim…é pra viver o hoje. Mas lembrei tanto como era viver sem tecnologia, que o presente mundo digital e virtual me desanimou momentaneamente.

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