Ensinar, aprender, plantar e colher

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Ao abrir as portas para novos conhecimentos, pessoas e ideias, um grupo motivado pelo tema Sustentabilidade mudou o curso da história da Escola Básica Municipal Visconde de Taunay, em Blumenau. Tudo começou em 2011, quando Roseli de Andrade, diretora da centenária escola, foi convidada por uma empresa parceira a participar de um programa no IPEC – Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, em Goiás. Voltou tão empolgada que despertou a curiosidade nos professores e logo, 20 deles foram conhecer o local. A passagem pelo instituto foi apenas o primeiro passo de uma jornada no caminho da sustentabilidade. Brotava em todos a ideia de transformar a escola em um ambiente diferente, onde qualidade de vida, bem-estar e meio ambiente se unissem de forma multidisciplinar, conquistando mentes e corações.

Muitas vozes, muitas mãos
Para levar a ideia à prática, a diretora e alguns professores desenharam um projeto. Convidaram pais, comunidade, representantes do governo, de entidades ambientais, de empresas e artistas para um evento, o Café com Ideias. A fanfarra da escola recepcionou os participantes, que embalados por aquele momento, conversaram sobre o projeto, a necessidade de recursos e parcerias. Deste encontro nasceu dois comitês: o técnico, com representantes da área ambiental e governo, e o executivo, composto pelos profissionais da escola e os pais dos alunos, que ancoram todos os movimentos com muita garra.
O que era apenas uma ideia floresceu com a participação de muitos. Aliás, fazer acontecer de modo participativo está na essência da escola. Com sua experiência, formou uma grande teia de pessoas movidas com um único propósito: ser uma escola sustentável. Nela há uma rica troca de experiências entre uma equipe multidisciplinar que trabalha em conjunto, dentro e fora da sala de aula com elementos que passam entre, além e através das disciplinas. Convivência e colaboração permeiam tudo e estimulam uma relação onde todos ganham. E assim exercita-se uma nova forma de aprendizado, onde o potencial de cada um pode vir à tona.

Sabia que o xinxim está maduro?
Questiona uma professora à outra ao cruzar o pátio. Estas e outras simples atitudes revelam que apenas quatro anos depois, há uma integração perfeita entre escola e natureza na fala e na ação. Numa área verde privilegiada, há arvores frutíferas, plantação de morangos e nascente, que ao ser represada virou habitat de girinos. E nem eles escapam das aulas, pois são estudados e observados até virarem sapos. Tem também macacos bugios que habitam as árvores sob a lagoa. E claro, já viraram tema de estudo numa parceria com profissionais do Projeto Bugio (equipe que estuda a preservação das espécies no Vale do Itajaí).
Sob o teto da escola passam diariamente em torno de 900 alunos, atuam em média 50 docentes e mais 20 funcionários, que se unem para fazer diferente. ”Os dados e o dia a dia mostram um maior vínculo nas relações entre os alunos, mudanças de comportamento e fortalecimento do respeito. O aluno não consegue mais ver uma agressão ao meio ambiente e não fazer nada. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) também melhorou”, explica Jeane Pukall, professora articuladora. Jeane coordena o trabalho e foi contratada em 2012, quando o secretário municipal de ensino se surpreendeu com a qualidade do projeto.

Outra forma é possível
O ensino de forma criativa mostra resultados desde a primeira ação, que foi reflorestar a área do estacionamento da escola. ”O aluno quer vivenciar o que aprende. E quando vivencia, o aprendizado passa a ter um significado. Ele relaciona mais facilmente o que a escola ensina com a prática”, diz a diretora Roseli.
Do reflorestamento do estacionamento partiram para o projeto de revestimento de uma sala de aula com caixas de leite vazias, na esperança de diminuir a temperatura interna. Começou então o estudo da composição das embalagens, se funcionariam como isolamento térmico e cálculos matemáticos para viabilizar a iniciativa. As caixas dos produtos consumidos nas casas dos alunos deixaram de ir para o lixo e passaram a ser entregues na escola.
Entrou em cena também o talento de Marli Martins, auxiliar de serviços gerais na escola. Primeiro ela higienizava as caixinhas, mas depois passou a costurá-las. “Este envolvimento fez com que a gente passasse a reciclar em casa também”, diz Marli. Logo, logo ela transformou as embalagens em cortinas. O lado cinza do material serviu para cortar a luz, o que amenizou a sensação de calor. Dali Marli partiu para um desafio maior, costurando um grande painel. Depois de um mês, a sala estava de cara nova, toda forrada e pintada de branco. Os estudos comprovavam que podia-se diminuir a temperatura em até 8 graus, mas por conta do teto da sala conseguiu-se diminuir 4 graus, o que ajudou muito. “Me sinto feliz em contribuir com a transformação que acontece aqui”, afirma Marli. Desde lá, as caixinhas de leite viraram uma febre na escola. Nada mais é jogado no lixo. Com criatividade, ganham outras formas e viram sacolas, presentes, artesanato, murais e muito mais.

Nestes cinco anos, muitos outros projetos saíram do papel, como o jardim biodiverso, também chamado do “jardim da vovó” porque reúne flores, ervas e temperos, idealizado com mudas trazidas de casa pelos alunos. Tem ainda um parque de pneus coloridos para recreação e uma composteira, que gera todo o adubo necessário para a manutenção das hortas e jardins. E mais: captação de água da chuva, que serve para lavar as calçadas e a sensacional Casamática, um espaço para leitura concebido com garrafas pet’s e coberto com caixas de leite vazias. A ideia surgiu dos próprios alunos que queriam um local para ler, além da biblioteca. Virou realidade depois de explorados muitos conhecimentos de matemática – daí o nome. “Cada ação dos alunos gera empoderamento. O jardim, a horta, o espaço para leitura não são da escola, são deles”, reforça Jeane.
E a natureza retribui a cada estação. Cruzando em direção ao ginásio e à sala de música, avista-se do alto e de longe uma grande mandala verde. É a horta em formato circular criada em 2013, que produz muitas verduras para a merenda. Começou como uma maquete em sala. O grande desafio dos alunos foi transferir o que foi construído pequeno para o grande terreno. Para tanto, criaram um compasso gigante, que ajudou dar vida à horta. O reconhecimento externo veio logo depois, numa Feira de Matemática.

Além da escola
“Um dos objetivos é que o conhecimento ultrapasse os muros da escola e chegue na comunidade, e depois na cidade, e mais e mais longe. E o que se percebe, na prática, é que o aluno transfere a vivência da escola para a família”, afirma a Diretora.
Pâmela Alves, de 13 anos, estudante da 7º ano, confirma: “Levo os conhecimentos daqui para casa e hoje já temos composteira. Também incentivei um tio a fazer uma na casa dele. Quando vejo alguém jogar lixo no chão, eu recolho e falo com a pessoa”. Pâmela é uma das integrantes da COM- VIDA – Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida, que foca estes temas na escola.
Roselete Pasold, mãe do aluno Christian, que cursa o 9º ano, reconhece que o trabalho da escola chegou de forma positiva na sua casa. “Hoje reciclamos de forma diferente porque meu filho nos mostrou o ciclo da reciclagem, o que acontece depois que o lixo sai da nossa casa. Com isso, melhoramos a separação. Garrafas plásticas, por exemplo, não ficam com papeis. Há uma mudança de postura dele e nossa em relação ao meio ambiente”.

Além das fronteiras
Todo este trabalho rendeu um reconhecimento internacional à escola, que recebeu o certificado de Escola Criativa e passou a integrar o restrito grupo de apenas quatro no Brasil com o título. O documento é concedido pela Rede Internacional de Escolas Criativas (RIEC), com sede na Universidade de Barcelona, na Espanha, e reconhece o potencial inovador e criativo da escola do século 21. “Uma aluna da Furb estava fazendo o seu trabalho de conclusão de curso sobre escolas criativas. Fez uma avaliação de dez critérios na Visconde de Taunay e o resultado foi ótimo. “Para ser reconhecida, a entidade avaliada tem que alcançar, no mínimo, a nota 6,5. Ficamos com uma nota entre 8,5 e 9,0”, explica Jeane. Este prêmio marcou um novo período na escola, que a partir de 2013 contou com quatro professores participando de um curso de dois anos em Ecoformação e Biodiversidade, parte do programa Novos Talentos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ), na Univeridade de Blumenau, a Furb. A escola também é tema de um capítulo do livro Novos Talentos – Processos Educativos em Ecoformação e teve a honra de receber a visita de Saturnino de La Torre, em 2013, co-fundador da RIEC.

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